Rayssa não quer ser chamada de “fadinha”

Rayssa Leal com a medalha de prata dos Jogos Olímpicos Tóquio 2020

A skatista Rayssa Leal ganhou medalha de prata, na modalidade street, nas Olimpíadas de 2021, disputadas em Tóquio. Apesar de não ser nenhuma novidade, já que a competição contava com outras atletas com idade inferior a 15 anos, a idade de Rayssa foi destacada sempre que possível. Os canais se esforçavam em trazer momentos da infância de Rayssa já sobre o skate para reforçar essa narrativa. Em determinado momento da Olimpíada começou a circular o apelido “fadinha” sendo atribuído jovem skatista. Sabe-se que ela mesma deu origem ao apelido, andar de skate fantasiada de fada. Um de seus vídeos chegou ao famoso Tony Hawk que viralisou a skatista e o apelido. O tempo passou e Rayssa agora é uma adolescente.

Rayssa chegou às finais da prova olímpica, sagrando-se vice-campeã. A euforia entre os brasileiros foi geral. Os canais que transmitiam a competição enalteciam o feito, fazendo questão de enfatizar que se tratava de uma menina de 13 anos, a atleta mais jovem da história e ganhar melhada olímpica numa competição individual para o Brasil.

Logo no retorno ao Brasil, ainda no meio da euforia de sua vitória, Rayssa informou à imprensa que preferia não ser chamada de “fadinha”. Esse gesto me trouxe uma reflexão que sempre faço quando assisto TV, mas creio que passa despercebido por grande parte dos telespectadores/torcedores.

Uma emissora de TV é uma empresa. Isso parece óbvio, precisa ser problematizado. Enquanto empresa e organismo vivo, toda emissora de TV se mantém e cresce em função do número de telespectadores que tem e do tempo que esses mesmos telespectadores passam em frente à TV. A partir desses dados, as emissoras negociam com os anunciantes os valores dos comerciais de TV, principal fonte de renda dessas empresas.

Dito isso, é preciso ter em mente que os movimentos que uma emissora faz e as narrativas que ela cria são sempre em função de aumentar a quantidade de telespectadores e o tempo de fidelidade a ela.

No caso específico de competições internacionais como as olimpíadas, a estratégia mais trivial e lucrativa é enfatizar a participação de atletas nacionais e daqueles atletas de outros países que, aparentemente, são muito superiores aos demais. Essa estratégia quase sempre funciona com quase todos, porque temos uma inclinação cultural a nos identificar com outras pessoas que possuem algo em comum conosco. Nesse caso a nacionalidade. E somos também inclinados a nos engajar com pessoas que são capazes de grandes feitos.

Como disse anteriormente, uma emissora precisa manter os telespectadores engajados com suas telas. Assim, depois que nós ligamos a TV, é preciso fazer com que continuemos com ela ligada por muito tempo.

No caso de uma competição como as Olimpíadas, exibir provas com a presença de atletas brasileiros não é suficiente para nos manter ligados à TV por muito tempo, uma vez que as provas da maioria dos esportes são relativamente curtas.

Daí surgem estratégias como replicar os resultados das provas em outros programas; convidar atletas para programas de entrevistas, de auditório e até programas artísticos ou de culinária. Outra estratégia muito comum é contar a história do atleta ou entrevistar seus familiares. Os jogos olímpicos permitem também que as emissoras de TV tentem alçar os atletas medalhistas à condição de heróis nacionais ou de figuras mitológicas, endeusadas e é aí que começam a surgir os problemas.

Na ância de criar elementos, fatos, narrativas para manter nossa atenção as emissoras de TV acabam construindo imagens dos atletas que nem eles mesmos estavam desejando. A maioria dos esportes tem um ciclo mundial e um ciclo olimpíco. Para o ciclo olímpico os atletas treinam durante longos 4 anos para participar de provas que muitas vezes são decididas em questão de segundos. Assim, a conquista de uma medalha não é, de forma alguma, resultado de superpoderes, intuição, sorte ou azar ou de benevolência ou encantamento de qualquer natureza. As medalhas são conquistadas por aqueles que treinam, treinam, treinam e fazem nas olimpíadas aquilo que treinaram. É assim para a ginástica, para o boxe, para a natação e não é diferente para o skate.

Rayssa conquistou a medalha de prata porque executou as melhores manobras, somou mais pontos. Teve consistência, teve estratégia. Para alcançar esse desempenho, ela treina desde os 7 anos de idade, ou seja, há 6 anos. Lembrando que um atleta de alto rendimento treina, no mínimo, 8 horas por dia. Portanto, o apelido “fadinha”, apesar de carinhoso e de servir aos propósitos comerciais das emissoras de TV, contribui para construir a falsa ideia de que a capacidade e o desempenho de Rayssa é fruto de superpoderes.

Por isso é preciso lembrar que Rayssa não é fada nem fadinha. É uma grande skatista, jovem, mas que treina e vence há muito tempo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  +  75  =  85